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PAIXÃO OU PRISÃO?
Como uma derivação de algo tão poderoso e belo como o amor pode desencadear tamanhos pesadelos? Amor é afável — carinhoso fruto doce e macio. Paixão o oposto — desejo levado a um grau exagerado de intensidade, acima da lucidez e da razão, azeda pedra áspera e pesada.


A paixão, principalmente sua forma aguda – paixonite –, desperdiça energia física, psicológica e espiritual. Quanto desperdício de dons humanos, tanta encrenca, tanta complicação.

Chego a ficar pasma de acolher machucados e ferido por ela. Cheia de ímpetos e explosões, tempestade exagerada de um querer que não consegue ser contido, sossegado, que não aprende a conviver com a rejeição. A palavra que descreve essas experiências radicais? Excesso!

O amor, que deveria ser brincadeira e diversão, mostra sua dinâmica mais cruel: contaminando, destemperando, machucando. Parasita, como uma doença, a paixão invade, derruba, suga, se apossa. Atrás do sorriso sedutor, os dentes afiados que dilaceram e destroem.

É preciso atenção e cuidado para que o amor não seja engolido pela fúria da paixão com suas estatísticas — sempre números. Número de parceiros, número de vezes, número de posições. O objetivo não é mais conquistar alguém. É conquistar e, ato contínuo, passar, o mais depressa possível, à conquista seguinte.

Onde vamos abrigar os afetos verdadeiros? Mais humanos? Situação paradoxal: o amor, fonte de felicidades, passa a ser empunhado como uma arma de combate, máquina de sofrimento.

Como enfrentar esse apocalipse do sentimento? Devemos fortalecer nossa espiritualidade pessoal, base de nossas experiências. Não permitir que ninguém invada esse nosso território íntimo, inexpugnável. Lá, contra a tirania das paixões, cultivamos a serenidade do amor.

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